terça-feira, 29 de março de 2011

Elementos simbólicos

Elementos simbólicos

Sete: é o somatório dos 4 pontos cardeais com a trindade divina; representa a totalidade do universo em movimento.

Nos nomes Baltasar e Blimunda tem um significado dual, uma vez que se liga à mudança do ciclo e à renovação positiva, cujo resultado será a construção da passarola.

Nove: representa a gestação, a renovação e o renascimento.

Blimunda procura Baltasar durante nove anos. Quando se separam, fragmenta-se a unidade representada pelo par. No final é a ela que pertence a “vontade” de Baltasar, no momento em que morre.

Passarola: elo de ligação entre o céu e a terra; “ barca voadora” (barca – viagem; ave – liberdade); representa a alma humana que ascende aos céus, numa ânsia de realização que a liberta do universo canónico e dogmático dos homens. Simboliza a libertação do espírito e a passagem a um outro estado de existência.   
           

A dimensão simbolica

Personagens Simbolicas

¨      Baltasar e Blimunda – personagens diferentes (ele, fisicamente, sem mão e ela, pelos seus poderes)

Ele é o demiurgo que cria a passarola. Tal como Ícaro, ousou aproximar-se demasiado do sol, sofrendo a queda definitiva que o conduziu à morte na fogueira.
A sua relação amorosa com Blimunda é baseada no silêncio, no conhecimento mútuo e implícito de ambos numa vida comum. A relação de completude que os une forma-os imunes ao meio que os rodeia, defende-os das superstições, fortalece-os contra medos e temores.
Simbolizam o Sol/ a Lua, o dia/ a noite, e a Luz/a Sombra, a união dos opostos, o universo divino e o universo humano.

¨      Padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão

Ser fragmentado, dividido entre a religião e a alquimia
Aplica os conhecimentos mecanicistas da razão e da técnica, ultrapassando a sua época
Simboliza a aspiração humana, que está subjacente ao voo da passarola através das “vontades”, substituindo o dogmatismo religioso pelo humanismo.


¨      Domenico Scarlatti

Representa o transcendente que advêm da musica e que, ligado à clarividência de Blimunda, instaura o domínio do maravilhoso na obra.
Simboliza a ascensão do homem através da música numa clara união entre a acção e o pensamento
Ligado ao mito de Orpheu

Linguagem e Estilo

Memorial do Convento é uma obra marcada por uma narrativa de ritmo caudaloso, fluente, ritmado por frases longas, onde são utilizados ditados populares e expressões que revelam uma sabedoria adquirida na vida quotidiana. As marcas de oralidade são, igualmente, utilizadas ao longo de toda a obra. Saramago possui um estilo muito próprio, dialogal e inconfundível, onde as regras do discurso são aparentemente transgredidas: utiliza parágrafos com aproximadamente uma pagina, com textos contínuos com diálogos neles inseridos, sem recorrer à utilização da pontuação normalmente utilizada: os dois pontos, o travessão ou as aspas. A estrutura não deixa de ser organizada, mas existem no texto linguagens que não correspondem ao estilo discursivo habitualmente utilizado. “ De facto, José Saramago parece ter revertido ou radicado o processo de escrita ao modo próprio da fala. Enquanto o discurso escrito obedece a um conjunto de preceitos linguísticos segundo a normatividade da língua, o discurso oral permite a libertação deste modelo, deixando soltar a linguagem em improvisos sintácticos, morfológicos, semânticos e até fonéticos, que exprimem a vivacidade, a novidade e a originalidade da língua”.
Exemplificando, a descrição de elementos espaciais ou de comportamentos e atitudes das personagens mostra uma transgressão das regras linguísticas do texto escrito, “levando à interpretação de elementos descritivos e narrativos, à mistura com diálogos e outros segmentos frásicos que tornam o discurso indirecto “diluído”, mais próximo de realizações próprias do discurso indirecto livre (onde as coordenadas da narração reflectem uma polifonia enunciativa sem fronteiras claras).”
Muitas das personagens na obra remetem-nos para excertos com elevada simbologia. Após a leitura da obra, é possível verificar que o autor “cria” um novo discurso, proveniente da mistura dos discursos directos, indirectos e indirectos livre, que, por vezes, torna difícil a sua diferenciação. Existe uma alternativa entre o discurso escrito e o discurso oral onde, por vezes, está intercalado o monólogo interior.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Tempo do Discurso

É o tratamento que o narrador dá ao tempo podendo ou não seguir a ordem cronológica dos acontecimentos. Nesta obra o narrador recorre a uma analepse que explica a construção do convento como consequência de um desejo antigo expresso em 1624 pelos franciscanos de possuírem um convento em Mafra.
O narrador corre ainda a prolepses;
  
¨      Prolepses que dão a conhecer as mortes do sobrinho de Baltasar e do infante D.Pedro para estabelecer o contraste do sois funerais;
¨      Prolepses que revela a morte de Álvaro Diogo de uma queda durante a construção do convento;
¨      Prolepses que informa sobre os bastardos que o rei iria gerar, filhos de freiras que seduzia;
¨      Prolepses que constitui uma visão globalizante de tempos distintos por parte do narrador ( tempo da história e tempo da escrita ): referencia aos cravos, aos voos da passarola e a ida do homem a lua.


Espaço Psicológico

É um conjunto de elementos que traduz a interioridade das personagens.

Os sonhos:

¨      Os sonhos de D. Maria Ana com o cunhado, o infante D. Francisco, que revelam a sua condição feminina reprimida.
¨      Baltazar sonha com Blimunda e com o padre Bartolomeu.

Os pensamentos:
   
¨      Do padre Bartolomeu Lourenço acerca da religião, da ciência dos projectos.


O Tempo

Tempo Histórico

São todas as informações que permitem caracterizar o reinado de D. João V.

Tempo da História ou Tempo Cronológico
                                     
      Inclui todas as referências as datas, anos, meses, dias, momentos do dia.

                                   
¨      1711- D. João V ainda não fizera 22 anos;
                  D. Maria Ana tinha vindo da Áustria à 2 anos.

¨      1717- Bênção da primeira pedra do convento;
                  Baltasar e Blimuda regressam a Lisboa para continuar a passora.

¨      1719- Casamento de D .José com Mariana Vitória e de Maria Barbara com o príncipe D. Fenando VI de Espanha.

¨      1730- 22 de Outubro; 41º aniversário do rei; sagração do convento de Mafra.

¨      1739- Blimunda vê Baltasar a ser queimado num auto-de-fé.
                       Passam 28 anos.






sábado, 19 de março de 2011

Espaço Social

Procissão da Quaresma
  • Penitencia física e mortificação da alma após os excessos do Entrudo;
  • Descrição da procissão;
  • Manifestações histéricas de fé.

Auto-de-fé
  • São dias de festa;
  • Revelam o gosto sanguinário do povo, que procura preencher o vazio da sua vida através de emoções fortes;
  • As mulheres exibem as suas toilettes e entregam-se a jogos de sedução;
  • A proximidade da morte dos condenados constitui o ambiente de motivo de festa;
  • Os bens dos Judeus são deixados à coroa, daí que a sua morte seja encarada positivamente;
  • É num auto-de-fé que se conhecem Blimunda e Baltasar.

Tourada
  • Momento de tortura dos animais, por vezes comparado à tortura nos auto-de-fé;
  • Os assistentes aproveitam, mais uma vez, para se entregarem a jogos de sedução.

Procissão do corpo de Deus
  • É uma crítica às crenças religiosas;
  • Referencia como Baltasar e Blimunda vivem a procissão;
  • Critica à vida dissoluta do rei com as freiras;
  • Visão oficial da procissão como forma de libertar as almas dos pecados cometidos;
  • Histeria colectiva das pessoas que se batem a si próprios e aos outros como manifestação da sua condição de pecadores.

O Trabalho no Convento
  • Mafra surge como um local de servidão desumana a que D. João V sujeitou os seus súbitos para alimentar a sua vaidade;
  • 40.000 portugueses foram obrigados pela força das armas a se deslocarem das suas casas e a edificarem o convento.

A miséria no Alentejo
  • O Alentejo é um espaço de fome e de miséria, de luta pela sobrevivência, onde por vezes as pessoas se entregam a comportamentos imorais.

Cortejo Real
  • Atravessa o Alentejo aquando dos casamentos dos príncipes. Um grande numero de mendigos acompanha o cortejo, destacando-se mais uma vez os contrastes sociais.

sábado, 12 de março de 2011

Espaço Fisico

Espaço Físico
A evocação de dois espaços principais determinantes no desenrolar da acção: Mafra e Lisboa.

Mafra: passa da vila velha e do antigo castelo nas proximidades da Igreja de Santo André para a vila nova em cujas imediações se vai construir o convento. A vila nova cria-se justamente por causa da construção do convento.

Lisboa: descrevem-se vários espaços dos quais se destacam o Terreiro do Paço, o Rossio e S. Sebastião da Pedreira.

Portugal beneficiava da riqueza proveniente do ouro do Brasil. D. João V em decreto de 26 de Novembro de 1711 autorizou que se fundasse, na vila de Mafra, um convento dedicado a Santo António e pertencente à Província dos Capuchos Arrábidos.

Ludwig, arquitecto alemão, estava em Lisboa, em 1700, contratado como decorador - ourives, pelos Jesuítas. Foi a ele que entregaram o projecto do Mosteiro, destinado a albergar 300 frades. A traça do edifício terá sido executada por volta de 1714-1715 ao passo que a igreja, avançada até ao zimbório, foi sagrada em 1730. Outras dependências foram construídas para além da igreja portaria, refeitório, enfermaria, cozinha, claustros, biblioteca.

 Terreiro do Paço
Local onde primeiramente trabalha Baltasar na sua chegada a Lisboa, descrição pormenorizada e sugestiva da procissão do Corpo de Deus, em Junho. É um espaço fulgurante de vida, com grande importância no contexto da sociedade lisboeta da época.

Rossio
Surge no início da obra, relacionado com o auto-de-fé que aí se realiza. A reconstituição do auto-de-fé é fidedigna, a cerimónia tinha por base as sentenças proferidas pelo Tribunal do Santo Oficio e nela figuravam não só reconciliados, mas também relaxados, aqueles que eram entregues à justiça secular para a execução da pena de morte. O dia da publicação do auto era festivo, segundo se pode constatar das defesas efectuadas. A procissão propriamente dita saía na manhã de domingo da sede do Santo Oficio e percorria a cidade da Lisboa antes de chegar ao local da leitura das sentenças, numa das praças centrais. À frente seguiam os frades de S. Domingos com o pendão da Inquisição. Atrás destes os penitentes por ordem de gravidade das culpas, cada um ladeado por dois guardas. Depois, os condenados à morte, acompanhados por frades, seguidos das estátuas dos que iam ser queimados em efígie. Finalmente os altos dignitários da Inquisição, precedendo o Inquisidor – Geral. A sorte dos réus vinha estampada nos sambenitos (Hábito em forma de saco, de baeta amarela e vermelha que se vestia aos penitentes dos autos – de – fé) para que a compacta multidão que se aglomerava soubesse o destino dos condenados.

S. Sebastião da Pedreira
Local mágico ao qual só acedem o padre, Bartolomeu Lourenço, o Voador, Baltasar e Blimunda. É lá que se encontra a máquina voadora que está a ser construída em simultânea com o Convento de Mafra. A passarola insere-se na narrativa como um mito, do qual o homem depende para viver, mito proibido mas que se evidenciará e se deixará ver pelo voo espectacular que se realizará, mostrando que ao homem nada é impossível e que a vida é uma grande aventura. S. Sebastião da Pedreira era, àquele tempo, um espaço rural, onde não faltavam fontes, terras de olival, burros noras, e onde se situava a quinta abandonada. Ali irão as personagens, variadíssimas vezes e pelas razões mais diversas.